terça-feira, 27 de Outubro de 2009

na direcção entrevista do amor

persigo o movimento da chama de um fósforo
sob o escuro enquadramento do quarto
na aparição vergada onde a opala incide

por vezes, simulava os gestos dum retorno
o desejo revela-se-me entre a sombra e o caminho
uma nesga de luz entreabria-se à laminar fissura do poente
e cristalizava-se-me às veias a pupila gravada ao teu único sentido

(Vejo-te…)

e a semi-obscuridade projecta-te em função do meu desejo
dominando-me os sentidos que se me envergam, absortos
infiltrando-se onde o sabor se retrai e se impele

pouso a língua à foz da sede que encubro

subitamente, o corpo exala a direcção entrevista do amor
as velas tamisam a discorrida luz da pele
as pestanas cedem ao movimento refreado ao sono
e pressinto a purpurina névoa que te anuncia, em vislumbre

apaziguando-me o desejo na humidade em que te velo

(Balbucio...)

«fala-me dalgum espaço que desconheço
dos reflexos de jaspe com que se me alude o mundo
do solfejado ensejo que se suspendera às mãos elididas
da contiguidade do ponto onde se me tolhem os versos coibidos»

(Aguardo-te...)

persigo o mimetismo que se me extingue dos lábios, em torpor…
sobre a chave onde se me acoplara a serpe, Inflada
na aparição exaltada onde se derramara o instinto

(Respiro-te...)
e através das fachadas que se metamorfoseiam em vozes,
confino-me à vaporosa essência do corpo
palmilhando algum tempo oculto onde se subjugara o teu lugar em mim

24/10/09

domingo, 4 de Outubro de 2009

na cumplicidade do sonho

escondo-me no lugar paralelo à cidade
no avesso das palavras onde separo as pétalas que adiante se desfiam
no rastro que pensas palmilhar o fogo-rasgo do mundo
nas sombras impossíveis que se escoam do contorno das searas

são estas as veias das folhas onde me impera o segredo

relembro o monologar sucessivo das águas
a boca que partilha o mito da terra
os reflexos últimos de um divindade sem nome
o vento que descai aos ombros rumo ao voo de aves desconhecidas

junto a volúpia à fagulha e ardo...

atravesso a tonalidade magenta onde os meus dedos se pausam nos teus
as linhas das mãos se unem às tuas
e rente à noite mais clara principia o teu rosto
ao sossego

a linguagem dos olhos sopra a nudez húmida do corpo

digo: «o anseio passara da face ao gosto
obliquando a luminosidade das pálpebras que, erguidas,
revelaram os olhos providos de uma inefável paixão»

um após outro, o dia apagara o singrado gemido
o demiurgo rugido alargara a estelar cisão
o poente evolara-se da língua ao mirto
e regressei ao fundo difuso onde se fundara a ilusão

este é o sussurro que te despe à cumplicidade do sonho...

transumantes euforias recaem-me ao revolvido oceano
pelos lábios que te pronunciam os gestos precisos à imagem
de uma saudade que se desprende desabada, eclipsada
à voz...

murmuro: «... e se durante o sono me ouves,
os passos estender-se-ão ao caminho?»

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

o teu lugar ao espelho

traço a traço, revela-se o sonho que o desejo acende ao meu lado
a noite sopra a lembrança dos teus lábios alimentando os meus
e os dedos detêm a fisionomia lendária de um torpor imerso
sob os olhos que o desvelam em segredo

uma tira de luz entreabre a janela que me separa de uma excessiva alvura

repouso na imagem que o anseio me arrasta para os olhos
a extensão do corpo abriga-me a língua que te persegue o contorno do dorso
e uma imobilidade de vozes antecipa o vago gosto que à boca me sacia a sede
aflorando-me à pele um roçar ávido de impressões

em cada poro me alisto ao limbo de um reflexo em ti

um travo de ardor apossa-me as mãos ao desejo; antecedendo o corpo que se desenha
entre os meus fátuos dedos que se desdobram em chamas
pela sépala selada aos lábios

um desvio no espaço desvanece-se ao evolado ensejo que me encostara a face ao sono

dos passos, saboreara a presença em que se isolara a fugacidade de uma meia voz em pólen
a noite suprimira o decurso que me ditara o fastio
e num regresso de pálpebras desnudara a folhagem acumulada das pedras
interceptando o fulcro que despojara da foz o amarelecimento do rio

precipito-me à nuvem que o dia aplacara no raro percurso que me ensombrara a feição,
soerguendo a flor que em surdina aspira vogar-te
quando do formulado fôlego se imprimira ao seio a miragem-estação

navegam crepúsculos na proximidade dos montes

das raízes, flutuam-me luzes nos olhos
e, se as uno, das paredes do quarto assoma um vulto táctil, cativante
que reverbera a eclosão do mundo onde em teus braços me afluía o caminho

refaço o Outono e readormeço na inclinação dos teus lábios
e ainda que os olhos se cerrem no escuro
é o teu rosto que me persiste à memória
onde ao meu corpo se estende o teu lugar ao espelho

22/09/09

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

ascende-me um torpor amante

a memória é uma muda efígie
uma sucessão de lugares que se saboreiam à boca de um cálice sânscrito
sob o rumor dos trevos obliquamente descrito, a teus pés

há na tua sensualidade um verdadeiro sentido de encontro
uma opacidade de esferas que me confere o secreto silvar das tílias
cerrando ao olvido os vinculados bordos que o fiam

pronuncio o inflar lascivo que me devolve à profusão de um regresso

o tempo pára de cada vez que a emoção me rejubila à face expandida,
as abóbadas se desvanecem em elípticos vitrais errantes,
o cansaço se subtrai das ataviadas nervuras que se me detêm à pele,
e a adesão perplexa do teu nome me prevalece em todo o seu segredo-domínio

os acordes diluem-se no volver aos teus braços
tornam-se lampejos de sono transparecendo a infinidade da paixão

o desejo sorvia a lembrança que se juntava a um entorpecimento impreciso de vozes,
formavam-se chamas pelos lábios que abordavam as sebes revestidas de encanto,
ascendia-me um torpor amante circunscrito em desenfreadas encostas contíguas,
e a extensão dos mitos amaciava-me o gesto do teu reflexo ao gosto

a proximidade-distância compõe a díade de uma adesão ao sonho
fremindo ao clarão rasgado que me nasce dos olhos em pétalas
na claridade que se evola ao sedativo rosto da ilusão

se era tarde, revelava-se-me um fósforo ao retorno dos dedos
procurava que a luz se estendesse na posição formada do caos
e era pela dobra de um manto que me projectava ao impalpável cenário induzido
onde o teu corpo me incensava o sabor afigurado às mãos

30/08/09

terça-feira, 25 de Agosto de 2009

aguardo o mundo e pouso a face ao sonho

aguardo o mundo e pouso a mão à palavra
Há algures um tempo onde as fachadas dos lírios dão lugar à voz

Sucumbo ao extenuante gemido de uma fumegante tocha despida
redescubro-te à lembrança de um embebido sopro esbatido
transponho a noite que me restitui aos enigmas das águas
Deponho-me ao brotar, leve, de uma incidência – ao corpo...

aconchega-me à afinidade deste fluxo e refluxo de emoções

Houve um instante em que escutei o manso desabrochar do encontro
E os cabelos me sobrevoaram os olhos, em faúlhas...
numa alusão de harpa em fogo

toco ao lábio, toco o dedo, toco ao seio, toco... re-toco

Articulo a imprecisa promessa de uma flecha extinguida ao peito
onde boca a boca me acosto ao apelo relanceado da vertigem
(E as pestanas se entrecortam, estendidas...)
à proximidade da luz que me cerra os olhos ao esplendor do prazer

Abrasa-me o arguto tecido que me despoja ao fulgor do desejo
e a sedução do traço traz-te à fragrância desta tonalidade-som
Por onde te capto ao movimento tenro dos lábios
e uma indecisão do corpo proclama-te a este lume que me cinge

aguardo o mundo e pouso a mão ao teu

Tivesse a língua aprendido o ofício do voo,
e eu teria amado o entorpecimento fecundo da foz

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

na silhueta do desejo

(adormeço...)

o fervoroso corpo abandona-se à languidez onírica das preces
sob o voluptuoso aroma do desejo

extasia-me o desnudamento secreto de um adivinhado ardor ao foco
por onde se reflecte a possibilidade oculta de uma identidade ao espelho
quando a flauta se matiza às mãos que te reflectem à insondável face do amor
(e o anelar se desvia, em sede...)
perpetuando carícias à postura vulnerável do dorso

sente o sussurro que se dispersa pelos lábios...

supus que o jade retocasse o anseio das margens,
a infinitude baça de uma vera e leda emoção,
a sonoridade submissa de um afrodisíaco fruto difuso,
e as silenciosas cartas que a lareira susteve, de antemão

a silhueta do desejo cede profundidade ao olhar...

as águas isolarão a paisagem-sépia de uma cítara estendida ao quarto
quando o último paladar me deter à escarlate névoa vedada
e as pautas te contornarem os ombros nesta pausa-tempo que persiste
sob a linha que se avulta à vultuosa proporção dos teus passos

o longínquo é testemunho da saudade
(como a supérflua procura do teu trilho...)

as velas revelam a tonalidade rubra do rosto, abraçam-na
envolvem-na à intimidade por onde os sentidos se desfecham em demora
(roçando-te à câmara-escura onde o desejo se alaga, e alumia...)

um esquadro, um freio, um alaúde...
os lábios coincidem onde o teu nome que se inscreve ao centro
e o proeminente anseio se evade, absorto
(num indizível rito que me absorve ao sonho, que me és...)

esta é a desolação do fumo que rente passa, bramindo...


(de que me vale acordar, se apagando os olhos, te tenho?...)


26/07/09

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

esfumando-me...

aproximo-me do imobilizado reflexo que me pernoita à contraluz de um retrato
esperando-me onde o destino se desmorona enegrecido

o clandestino corpo atravessou o infindável perfil da manhã...

demando das estantes uma palavra que te retome ao sangue
que te erija dos pilares antigos, purpúreos, encantados

um gato de Steinlen saltou do rochedo exausto da memória e invadiu o manuscrito coagulado da alucinação

as paredes sugerem-me o fosco lume de uma roupa desfolhada ao quarto
por entre a comestível seiva que sobrevive ao recanto volátil da pele

um rumor baço tinge os alvéolos do tempo... na imperceptível cinza de um subterrâneo dócil, azulado...

Turner, digo. Turner, repito
e o silêncio é somente esse esbatimento de ilusões
onde se ergue o desespero de se ser apenas uma hesitação de tela alugada ao corpo

os dedos perseguem a fala dos corpos, possuem-na
habitam-lhe as frestas de uma miragem descascada às mãos
onde um nevoeiro de algas se extingue na humidade tépida, atribulada do desejo
e a luz cola-se-me ao corpo só, recolhido
por entre o segregado beco que te cristaliza aos lábios sequiosos

a penumbra germina-me neste excesso desordenado de reveladas poeiras iridescentes
e eis que as pálpebras subitamente te prolongam pelo dorso, cintilantes...

as anémonas tornam-se represas selvagens, felinas
vapores incertos que te perscrutam como lâminas entorpecidas
de cansaços vagos e oceânicas invenções

pauso-me, murmuro-te - sigo-me...
reinvento a noctívaga sobrevivência do desejo
onde passo a passo desafio-me aos pulsos aguados, outonais...

lambo a incendiada tâmara onde se apercebe a abdómen transição de um equinócio encerrado aos dedos

embato num casulo de pérola...
(desfaço-me à repetição dos meus gestos!)

reabre-se a nódoa de uma película esquecida ao estremecimento de um corpo fotografado em torpor

um meteoro sucede-me ao Oriente oblíquo do olhar...
(e é a ejaculada gota incólume que me apaga à continuidade caótica de uma luminosidade de concha flexível, dormente...)

perscruto-me, ausento-me, procuro-me...
entorpeço-me na casca evaporada de constelações indomáveis de limos
onde a travessia escoada de oceanos-búzio e segredos-fogo me acorda
ao lirismo aquático de uma respiração lenta, esfumada, insone...

11/07/2009

o mundo: à tua mão

digo «amo-te»
e deixo que os teus traços se dissolvam a sul
o teu rosto se espelhe na aparência de um abrigo
os meus lábios te ardam numa vaga de flechas insone
e a nudez me trace o fogo das veias no beijo que te recolhe

abocanha-me o desejo nesta imprecisão de amanhecer sucessiva

a noite oferece-me o idioma oculto dos dedos
o orvalho entornado ao rebordo do teu ventre
o corpo que se estende de sonâmbula em sonâmbula travessia
a língua que se reparte à transparência de um gemido e se move, Sibilina...

ao lábio inferior recorta-se um excesso de luz niilista

fixo-te à frescura ténue de um seio
viajo de olhar em olhar em ti
recolho a tapeçaria dos mares num mergulho germinado de sombras
lembro-te em cada mínimo gesto que faça ou em cada mínimo gesto que encontre
(E uma nebulosa atinge-me os cabelos num sopro!)

perguntaste «que te diz o meu olhar?»
sem que soubesses que a chegada dele é a chegada a mim
ou que o amor-segredo é esse mistério com que me seduzes

de lábios liquefeitos silenciosos, digo «quero-te!»
e as velas descrevem-te o rosto nestas bordas de chávena onde repouso os lábios
a tua fragrância demora-se no leito onde te percorro
e a tua ausência é ainda a tinta com que te escrevo

o beijo com que vieste foi a avidez com que me chamaste

li-te como se já te tivesse ao fundo
como se o teu anseio coincidisse com o meu destino
e as tuas palavras mais não fossem do que o reflexo que esperaria das minhas
ainda antes de chegarem

a chama com que te chamei foi a avidez com que vieste

o desejo, mais tarde, insinuara-se no sonho
as reminiscências de um inocente pecado houveram-me tomado a pele
e o mundo assentara, por fim, na tua mão

27/06/09

caminhos cerrados

há toda uma presença de sombra que sufoca
quando um trave de cave habita-me a língua de tédio
e as correntes do tempo bifurcam o espaço do sonho

persegue-me a silhueta de névoas onde outrora assinalei o caminho...

fumo a intermitente derrota na promessa urgente de me traçar à vertigem do canto
silencia-se a ruína onde se cultiva a indiferença de mais um sulcado estertor sem voz
sopram-se cinzas por entre esta densa neblina etíope d’estibordo
(singra o manto lúgubre à longitude imprecisa do sabre...)

um cheiro a tribo tolhe-me aos subúrbios da peste...

devolve-me a ambição antiga à beira-lume dum oráculo d’abóbadas graníticas
na demanda inútil duma visão mística d’Antárctidas em fogo

um corpo fotografado à voragem do tempo transfigura-se em lodo...

a penúltima libação será o teu sétimo quadrante d’almíscar
onde reaprenderás o abcesso sinistro de um suspiro arquivado ao espólio

(ruge a fera que a alba encerrou à morte...)

o fósforo ao limite da redoma é o meu templo-vestígio,
um desejo manuscrito de andaimes por onde se m’enverga o instinto

desolo-me agora por entre o oculto gesto que me restringe o espaço
(e um trago de néon dimana-me à fímbria de um sonho)
Aquém...

22/06/2009

segunda-feira, 22 de Junho de 2009

o teu fogo-amante...

estarei presente no teu último acto de insónia
quando a metamorfose do busto te perpetuar à grafia do corpo
e o teu fogo-amante me tornar o morno incenso que te percorre

destino-me à espiral nimbada de um lusco-fusco de choupo
e vigiando a invocada paisagem que me leva ao reverso do medo
anteverei a transumante euforia de uma morada d’insuspeita paixão

(eleva-me afora dos pilares antigos d’Aqueronte...)
por onde um dardo sobrevoará a indecifrável tremura
do jade
e os lábios tatuar-te-ão desejos de ombro a ombro
como clave...

(mais um café, um desejo, uma página de diário...)

a roupa repousa ao segundo plano que me leva a boca ao cravo
onde um anseio cristalizado à memória de um faro, me subsiste
cedendo à passagem dos dedos corsários no abismo palpável
dos fenos...

(ensina-me a desdobrar o perfil oculto dos ventos...)
e seguirei contigo aonde a azulada herança é esse doce trave
que me dás

sábado, 13 de Junho de 2009

vigílias

dueto poético com Gothicum

sobrevoo a demolição-salsugem de mais uma inútil cidade de órbitas tísicas
(e um espectro de cinzas atordoa-me à partitura vibrátil de uma hélice precoce...)

perscruta-me nesta nitidez palpável de esparsos ígneos atrozes
fecunda a arcada de um desejo incrustado de indígenas segredos
encarcera-me numa ferocidade retroactiva de vozes
formula impregnados sustos à tez arrancada ao pavor

(sente os lábios cegos que se arrastam num bafo de ombros expectante...)

arestas sanguíneas evolam-se em proscritos archotes de sósias
silêncios nómadas soerguem-se de uma sonoridade encadeada de poços
harpas entontecidas retomam-me ao gemido impenetrável dos pólos

assalta-me uma luminescência de lodo à violácea textura da posse


Sinto o esvoaçar das libélulas da manhã…num doce murmúrio
Encontro-te, na maresia calma dos olhares singelos
Hoje és tu em mim! Na flora d`um crescer de sedução.

(canto-te os cantos nunca ditos, os trechos nunca tocados)

Nos lábios nascem hipérboles, asas de fogo que me levam a ti!
…em tons púrpura solfejam o teu nome…o teu bendito ser!
Fervilha-me o sangue, nasce-me a alma…aqui estou!
Olho-te nos olhos, sem pressas, penetrando-te o espírito

…e sorris…


(um rumor turvo assalta-me os olhos de névoas...)

lácteos elixires erguem-se em pálidos versos-híbridos estivais
nictalopes artérias pavimentam-te à ombreia felina da pele

exploro sombreados de Caravaggio à medida que o rebordo do ventre me abriga aos escombros


És manhã, és ave-do-paraíso que esvoaça nos meus dedos
Elevo-me na beleza que irradias…silencio-me na tua aura
(no teu imaculado despir na banalidade das coisas)
O teu toque sacia-me à paz…espanta-me os medos!
Favorece-me o existir…aquele que nunca fui!

…e sinto!


(incendeio o flash onde pernoita o vazio de mais uma noite sem ti…)

volteiam sílabas na enxertia ignóbil de um cântico-berço de sarjas
desfilam beatas nos trapos esconjurados dos bosques
avançam Guernicas no asilo psicadélico em que me devolvo

a sombra de um retrovisor persegue-me, mutila-me...
risca-me no pergaminho esgotado de uma tonalidade baça de ardósia

(nego-me agora como sempre te negaste...)
renego as índias onde me ocluso numa écloga de opalas e ópio

(procuro no suor dos lábios uma lembrança que te guarde…)

Se és tu, por que não vens?


Celestial pintura que derrama a tua voz…alva, cândida!
Canto angelical num corpo humano formado, vertido.
…derramando o elixir das noites vadias!
Onde a poesia se perde no adocicado tacto…o teu!
E onde o sonho perdura e se acalenta na eternidade…o meu!

Negas-te?

Ou serei eu o negado de mim mesmo? Aquele que te sonha!
Aquele que nada tem…
…e espreita…
O secreto deleite das horas que não existem!
…mas subsistem… (tão reais com a irrealidade deste eu)


(ferve-me um sonambulismo estancado ao sangue...)

existem horas inacessíveis ao corpo
onde um espesso líquido coabita o umbigo por ti
e são as pálpebras acesas que te compartilham à boca do oceano
na curva amena de um secreto ardor sem voz


…Dou-me! E

ste nada que tudo tem!
…a mim! A ti.


A Nós…

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

guardo-te...

guardo-te à memória turquesa de uma folha aberta à estação
reconhecendo os caminhos atribulados dos sonhos
onde uma porção de tudo se abre à candura dos gestos
e um demorado odor se faz passar em mim por ti

já foi o tempo em que nos amávamos por fascinadas cartas secretas
e os versos balbuciavam-te nestas tímidas palavras ténues
sem que jamais as ousasse sussurrar lentamente por ti

gravo-te à papoula de húmus incendiada aos lábios
a esta lembrança vaga do teu rosto iluminado ao fogo
à recordação de um inverno que ardia sem que o visse dos olhos
a esta face tardia que repousava madrugando d’ antemão

nunca estive tão longe de ti que não te sentisse tão perto...

guarda-me à memória da tua mão aberta em esfinge
à penumbra mordida por uma margem fresca d’encantadas romãs
à emoção doada a uma inominável paixão sem trevas
à presença vaga de uma perpétua e tenra ambição

(vem derramar-me à boca cada longo doce favo fortuito
e beber ao inocente desejo de um desejo insano)

nunca estive tão aquém de ti que não te quisesse mais...

já foi o tempo em que nos amávamos por murmuradas cartas exíguas
mas é ainda a noite que m’acende o anseio tépido dos lábios
nesse morno e tenro suster da manhã

segunda-feira, 1 de Junho de 2009

sou eco, sê voz...

Dueto poético com Giraldoff

[Voz...]

é quarto minguante e o calor atropela-me em imagens
o fogo coincide com a linguagem que me entremeia os dedos nos teus

é inútil atravessar os caminhos do tempo a sós
quando a lucidez permanece-me o olhar em sede
e os cardos sulcam amoras num breve trejeito de pétala ardente

(o gume é um desejo de bocas com que se ilude a percepção de um rasgo...)

[eco...]

Desaprendi os passos e há muito deixei de andar.
Um véu opaco ofusca-me a alma lua,
(As letras são espaço-tempo, substitutas do sentir...)

Trespasso-te a voz, derrubo a agonia,
É inútil atravessar os caminhos do tempo sem ti!

Nossos dedos são sombras transparentes,
Desfasada ilusão, anátema do destino,
Entrelaçado ballet da impossibilidade.

(Um vago nocturno transborda lágrimas-agulha...)

Teu verso-aroma é melíflua mão que me toca

E esta neve que cai sobre mim... cai sobre nós?

[voz...]

(um foco de luz decota-me ao seio...)
que brinda à obscuridade purpúrea do voo...

reconheço-te pelo olfacto diluído ao rosto
e pela identidade imprecisa duma gota livre que te define
ao lábio...

(tornámo-nos mutantes na alquimia de um gesto que se esfuma...)

calcinadas velas esboçam-me em sonâmbulos esgares
(simulando o rebordo das mãos...)

geometrias aciduladas oscilam ao olhar
(que te embarca...)

como nomear o horizonte que de delimita ao crepúsculo das veias?

[eco...]

No inverso do verso rasgo esta imprecisa demora.

Teu corpo é tempo intemporal,
De águas-furtadas.

Nossas letras são deriva genética em células,
(Imprecisões irreais de almas encadeadas...)

E no encontro da fala, a língua é gesto de outro alfabeto,
(Em nós...)

O peito esconde o beijo,
(Onde teu seio é devaneio...)
E tuas costas, minha encosta...

(A seiva diáfana é fragmento do desejo...)

Amparo-me no crepitado sussurrar do fogo,
(Sustenho séculos...)
... Espero por ti.

[voz...]

sigo a linhagem dos corpos nos veios d’inumeráveis acácias
reinvento-te ao cume da silhueta abstracta das águas
(desenho cristais de sal na embocadura crespada da noite...)

propagam-se especiarias à medida que o olhar te encontra ao desejo...

[eco...]

No último recanto do Ser:
A utopia é condimento que fende as Eras.

(Teu reflexo é ponte estranha,...)
Perpétuo vislumbre,
De um tempo-encanto...

[FOCO...]

Detém-me, onde sou voz em ti...
E ciciando ao repercutido lugar do mar
habitaremos a fotografia vinculada dos espelhos

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

no anseio de pulsar-Te

cubro-me do lado clandestino da alba
e uma surdina em flor cresce-me dos lábios por ti

não sei em quantas páginas se retoma ao eterno
em quantas línguas se desfolham as raízes
em quantos gomos visitarei o oriente
e quanto tinto se derrama à tapeçaria

desenhei o percurso duma ogiva cravejada d’arabescos
e as gotas de desejo acordaram estremunhadas
num travo saturado de esmeraldas-anfíbias

a vastidão amaina a poeira que germina...

soletrarei os enevoados manuscritos antigos
quando o olor perdurável me emendar às fissuras do tempo
e as nódoas dum oráculo feito nervura
me despenharem aos pigmentos ladeados
de nós...

por onde aspiram os teus dedos suicidas
quando sépala a sépala
se despem os sabores
da demanda?

de olhos fitos nos lábios que se entrecortam à luz
reavivo o desejo que te encena ao sonho
onde o coração se doa ao anseio de pulsar-Te
(escutando o que há de inaudível em ti...)

em que metamorfose repousa a tua essência mineral?

de trôpego jubilo à face, buscarei as malvas
d’equinócios veementes
emanando à vida selvagem que te sorve
de ambrósia em ambrósia
pelos dedos...

a chaga que o esplendor dizimará
trar-me-á à boca o fingimento
da miniaturizada glória
(que me bebe...)

quero escutar-me em ti...
(de ouvido centrado ao peito)
exalando uma qualquer vertigem de viver

tudo existe miseravelmente perecível
como este tédio
esta existência rouca
rota
rasa
esta vontade que rompe
rosna
rasga

não me sei quando não te sei
ou quando me sei vesga ávida
de ti...

cubro-me do lado esquerdo da manhã
e um desejo em flor acresce-me a vontade de ti

sexta-feira, 15 de Maio de 2009

quando o ocaso te traz aos meus olhos

estou na medida incerta do poente
soprando os gestos de uma corola por nascer
onde os dedos te tocam na precisão rasgada do ventre

aos passos apetece o segredo duma liana encoberta ao rosto

(arrastam-se manchas no suicídio inútil de me negar...)

estas são as mãos com que me ensinas a demandar os caminhos
da luz

estive
na contracurva de um plâncton rasgado
seguindo
de intempérie em intempérie
o coração

como vergar a derradeira nervura a solo?
como evocar a memória antiga?
como reter o sabor d’Abril?

o olhar amacia o morno fruto...
as pupilas dilatam-se e vejo-te – ao incêndio
no espelho que me reflecte o tríptico desejo
molhando-me os lábios no mistério das sílabas em pólvora

está a boca rodada para o canto mais escuro da foz
e a extinção da treva traz-me o início consciente
da inconsciência do amor

a noite possui o escarlate domínio dos fogos
e se o ocaso de trouxer aos meus olhos
é dadivosa a extensão das águas que se sorve

a paixão é uma semente criada por ti...

estarei na medida exacta do teu berço
onde uma sombra íntima acarreta a gota escorrida
(de um orvalho vertido ao pescoço...)

que turbilhão de cem dias me dás numa hora
... que te pense?

arrebatas a melancolia que me pousa à voz
além
e de uma taça feroz te concebo ao ardor do mais belo preceito:
a sua ausência
no relampejar exaustivo do sol

aproxima-te agora do meu mais fechado silêncio

e deixa-me a tua mais pura emoção

sábado, 9 de Maio de 2009

Ei-la - a paixão

Ei-la – a vontade
no exercício do fogo que assinala o meu gesto mítico

Os dedos pressentem a concha dos lábios. Bebem-na.
Alimentam-se do nevoeiro que me pousa os sentidos – aquém
de ti

Tenho sede à sede
e à anímica presença que me envolve
quando o mar se avista das sarças - dos corpos
e um aturdido ardor me derroca
ao berço: legífero
do fim

Por vezes, o olhar desprende-se do tumulto do anseio
e uma declinação de lábios obstrui-me à paisagem líquida
do dócil travo
sob o cais de um côncavo segredo inacessível ao canto
da dor

Ei-la – a madrugada
no gemido legível que me estende à precisão púrpurada viagem
quando uma plumagem opaca irrompe, em brasa, da insónia
e a boca omite a solsticial ardósia que me entorna
o peito

Há uma imprecisão díspar que me achega o corpo do teu
uma ruptura subtil que me articula as artérias - ao desejo
(E assim ficarei...)
sempre que te houver tocado
e o ensejo te trouxer à memória
das noites

Ei-lo – o amor
rompendo as esferas retrógradas das lendárias certezas
trazendo-me o impulso fecundo onde ambiciosamente te resguardo
ao agora
numa fome que me enjaula à ficção régia de te ter - sempre...

quarta-feira, 29 de Abril de 2009

fiz de ti amante

entreabre a noite à respiração que me coagula ao desejo
fecunda a sombra da matéria venusiana que me arde
perfura a alba à nimbada aparição duma ardência de dunas
prolonga-me para além da sede que te possui – desalojado…

povoam-me geometrias do outro lado da esfinge
(e de câmara lenta te pressinto na penumbra dum corpo cerrado)

procuro a quadra que te adquire à tonalidade rubra dos lábios
quando um áspero detalhe duma língua ardendo m’imobiliza
e de olhos vendados desencadeia-se o impulso duma metamorfose de corais

apuro o tacto onde minuciosamente te desenho em desalinho
e o estelar ofício do sonho me perpetua de oásis em oásis em ti
à contraluz dum corpo expansivo que m’entorna o beijo ao pecado

toma-me ao contorno dum lume despido
(sob um fulcro imperceptível que m’encima...)
à legitimidade da voz que me pertence

sou fogo: legado da chama que me tinge
e como um lábil astro ocultamente me desperto
quando boca a boca percorro os domínios de misteriosas espiras
e a um volátil secreto desejo saboreio o teu olhar-desafio

cinematograficamente dá-se a ignição do mar
na fisionomia dum punhado lascivo de arestas esguias
onde a seiva contorna a face dum decurso fixo
e a textura ofegante de um tecido por ti - explode
(como um punhado de choupos à deriva do sonho...)

serão tecidas a jade as estações repercutidas ao vento
quando uma palmografia te incandescer a cada gemido cifrado
amadurecendo os fosfenos com que t’embalo ao rumor dos cristais

diluíste-me nas águas duma adocicada promessa de levante
quando as luas ainda se contavam pelas mãos
e num traço a sépia fiz de ti amante - vincado ao destino
onde o amor me abarca à inominável tarefa de um sentir último

e diante de mim pulsa o que diante de ti me sustém:
nós

sábado, 25 de Abril de 2009

à flor de lótus: teu beijo

estou na fátua distância que te revela o princípio do rosto
e no feixe de luz que se sobrepõe à saudade que me borda

acendo o fósforo ao magma secular que me escorre
fotografo a península de um crepúsculo vertido de amoras
gravo-te ao centro das palavras que me espelham
vislumbro-te à chave por onde se amainam os ventos de estibordo

(reconheço a roseira balbuciada ao ardor do teu nome...)

os lábios aderem às sílabas que te contornam em acordes
o anis inscreve-se ao rebordo de um poema por viver
as pétalas dardejam plúmbeos ocasos de nenúfares em papel
as metáforas nomeiam-te à efervescência dum fogo por suster

(movo-me entre as aspas imprecisas dum regresso...)

a longitude baça duma passagem de mitos seduz-me agora...
os contornos da alba simulam o mapa do trilho onde te recordo
as folhagens tingem-se dum desejo que se debruça – e acorda
e o pólen eclode no perfil longínquo da tarde

parte como quem fica
nas centelhas de um romance erguido
à flor de lótus
num beijo...

domingo, 19 de Abril de 2009

desencontro

um desvio dos lábios, um segredo
um entorpecimento de versos, um temor
pauso-me à vida, espero-te - e aguardo-me
à vertigem cega, às ruínas
ao olhar crente descrente do amor

uma nudez cerrada, um tormento
uma lágrima que fere, um aplauso incólume
às vezes acordo vaga do meu sonho
e vêm as faces do fogo, as persianas rompidas
a ilusão de um espelho em nós

uma ausência, um corte, uma quimera
uma distância que rasga, implora, abstém-me à cor
escoam-me mundos, naufrágios, receios - sentidos
passam dias cá fora, talvez meses dentro
deixa-me ruir, desfalecer, sumir


talvez um dia me decifre



talvez um dia me acenes




talvez...

domingo, 12 de Abril de 2009

são horas de te amar

são sete horas no meu corpo fraco
morada de ilegíveis memórias
onde o tempo se sucede ao tempo que o sucede
e em que qualquer parte me subsiste o caminho:
tu

espio-te o corpo ao opiáceo desafio do ensejo
abro as mãos e respiro-te o acesso bravio
fecundo os estilhaços dos assinalados naufrágios em ciclos
e reinvento o destino que se anuncia:
desejar-te
(em cada coral listrado por ti seduzido)

há um brilho em cada olhar que se cruza à noite
quando os sonhos se captam à distância de um beijo tenro, açucarado
que se desfaz nos lábios como o suor vivo à pele

amo as estações tatuadas dos corpos
as lembranças por descuido vergadas
os oceanos debruçados d’enigmas
o sal que é encanto de polpa erigida

caminharei suave por ti
embriagando-me nas intactas marés de auge indefinido
onde a íris adere ao centro de um saciado mito
e o germinar excessivo dum anseio feito gemido me desponta:
tactear-te o calor do corpo esquivo
(tocar a proximidade estelar outrora esquecida...)

são cinco horas no meu sangue irrequieto
um travo de sonho adocica-me a boca ainda
(fecho os olhos e ouço-te agora mais alto!)
e o coração desaba à paixão estendida
em ti…

quinta-feira, 9 de Abril de 2009

na caligem do rosto

o olhar servo acede às antigas vigílias do corpo
suprimindo-se ao ubíquo vogar das aves antípodas

os palcos da terra estão sós: absorvidos de ausências de barro, febres frias
e esperanças simuladas entre o flébil abandono de hibiscos
e o chacinado deserto de hemisférios d’entrecortados mistrais

a memória é um órgão adoecido que pulsa, vibra e consome
ao imperceptível desejo que se agarra às paredes de adocicadas resinas

a medida sugere o horizonte compacto de uma ociosa ermida
quando se toca o lume de um múltiplo gesto solar
e uma tirania de lábios sangra ao fastio perpetuado na caligem dum sonho

sempiternas salamandras sibilam safiras que me selam em sagas

a tinta percorre a espessura labial de um manchado segredo a prumo
por onde m’arrasto à voragem dionisíaca dum espaço
e todas as gretas se apagam, Malignas
na humidade esgravatada de um perfil atemorizado
(e extinto...)

desato os lábios onde te ato o beijo e fico

a sede turva as pedras à imutável clepsidra do rosto
recolhendo-te as pálpebras à boca de um cio-crescente e Focal

há uma espécie de claridade inequívoca no sopro:
um fenómeno de cristais voláteis de espelhos

há um tremor oblíquo que me destina ao lodo:
uma permuta farejada de incendiados receios

amarelece o papel ambíguo da memória
o monologar obsessivo dos fotografados recantos do corpo

ficou-me o lado interior de um tocha de amortecidas ranhuras
o fulcro titubeado de um esquecimento singrado às mãos

o cosmos é um suicídio a três tempos de um eclipse que me pesa ao sono

(provoca-me uma vontade de rastejar em ti...)

basta-me o fogo que despes do olhar
para que um charco de chamas me queime a dispersão minuciosa do medo
e os cabelos te desçam num murmurar de seios sustido
segredando-te bêbados desejos numa aparência de amor

quarta-feira, 1 de Abril de 2009

gravo onde te cravo o beijo

posso escrever-te ao corpo cem vezes
desmistificar-te o nome amornado ao peito
recortar o poente ao topográfico ruído Sistólico
sobrevoar o arbóreo altear hipotético

a criminalidade é incompatível com o mar

o corpo é homicida como o vedado pulsar do tempo

alui-se a noite quando te acosto os lábios ao ventre
e bebes das águas Secretas um rumor de facas ardendo

a fome é um revólver de espelhos, digo
à consanguínea lembrança de um desalojado decurso perplexo

escoa-se o corpo na vocação jaspeada da vida
procura-se o suburbano talento inerte
aglutina-se a encurvada braçada de centelhas ao mito
arde-se à cilada duma catástrofe de chagas ao verso

amo o epicentro da pele subjugado à liamba em febre

amo o desferido eco duma ebriedade munida d’anis

murmúrios de tinto derramam-se à boca em friso
silêncios noctívagos acordam-me aos focos da ascese
latejam-me as pálpebras ao prolongamento feérico a pique
ideia-se a chave obscura que me purifica às raízes do medo

anula a visão vertical do ser:
a queda, o grito, a dor

o agora é uma urgência d’impulso suspensa à paisagem vigente

Projectivo Fascínio que me urde
:
eu sou a mão que os teus dedos limitam cerrados
na queimadura estelar de uma homenagem apossada de trópicos

o luar traduz a apoteose duma tensão imortal d’ardósias
onde as pupilas se refazem ao árctico esplendor do zénite

o voo do meu voo é quando o olhar - t’embebe
à carta onde te cravo o beijo
e te gravo em mim

quinta-feira, 26 de Março de 2009

arde o olhar no teu precipício

um punhal de sílabas retoma-me à apocalíptica salsugem do rosto

movo-me na desordem dum tácito grito vocabular
palpo a essência duma penumbra escorada às mãos
encarno a perspectiva oblíqua de gotas coralinas de glóbulos

despe-te da terra...

consome-te ao intocável eco duma voltagem gutural d’asceses

se acordo num gemido
é o sangue que me jorra na lide murmurada de coágulos minerais

num esgar esdrúxulo perscruto o raiar imemorial da noite...

ousada voluta em mim sustida,
de cândido fruto, à boca, derrama-se a ambrósia em teu ventre

arde o rumor dos trevos no olhar cego de te ter
ao contínuo foco duma obscuridade inocente de lábios vertendo baixinho

de quantos esboços se vestem os trópicos do teu berço?

o bafo espalha o ígneo feixe duma densidade de sombra insone...

aufiro teu imo esplendor à face
entrecruzando prodígios ao exasperado estremecer do sol-pôr

a queimadura do corpo não pode mais esperar sossego...

súbito lume rompendo às fibras dos poros mordidos
salgados dedos nas candeias repartidas dos membros
beijos curvados ao combustível enredo dos gostos...

(escuta o saibro que roça em ti desdobrado...)

entrecruzam-se sentidos em respirações luzindo em fios

amacia-se o gesto ao trincar lascivo das folhas

aprimora-se o palato ao encarnado suster dos versos

quero o teu precipício:
de labaredas sangrando aos lábios sibilinos

domingo, 22 de Março de 2009

na quietude ofegante do corpo

Adivinho o monólogo sanguíneo dos quartzos
Cesso ao fosforescente estuário que me pauta
Derramo ao compulsivo idioma dos púcaros
Circulo-te à ebriedade pressentida de hemisférios

os lábios percorrem-te à orla da chávena, hesitantes...

Arguto olhar que m’evades,
de hortênsias minado te re-clamo ao ensejo eclodido

Gelatinosas lembranças ramificam-te à represa tardia
Excessivas hastes debruçam-te aos azulados clarins do canto
Polidas madeixas transmudam-se ao primordial abrigo

quantos crepúsculos te desfiam à marsupial fronteira errante?

Num zoom vocal pernoito o cio obtuso das tâmaras
a chaga inquieta dos musgos
a cadência atribulada das névoas
as esquivas videiras que m’alimentam à quietude ofegante dos corpos

(segreda-me baixinho...)
a arenosa consistência do sonho onde te vejo
a muda fotografia do espelho onde te vogo
a fragrância inflexível do rosto onde te beijo
o momentâneo alvor dos gestos onde te olho

como se transpõem os sótãos de sinuosos receios?

Ergo a boca ao moroso brado dum poço
Sulco o espaço d’impetuosas argilas
Arqueio-me às veredas d’insones Retrógradas Arcas
(e é a tua presença que m’ilude o faustoso semblante dum tecto)

Sólidos cruzamentos de teias esboçam-me a caligrafia dos veios
(nos recatos aturdidos do tempo...)

visito a vidraça agreste dum bolor transviado de troncos...

teu antebraço: à despedida
meu coração: em ti dormindo
teu enlace
: à harmonia...
(e à ponta da língua os teares de rarefeitas vigílias,
às mãos...)

quanta saudade existe na saudade de ti?

segunda-feira, 16 de Março de 2009

O Incêndio

Acende-se o fósforo às mãos
e de turquesas à boca desencadeia-se o crime

Quis-me para ti...
tocar-te o corpo em apelo
vacilar às águas do rapto
salgar-te ao seio do berço
gravitar-te à desordem sísmica da pele

Este é o fôlego do teu mergulho

Nunca sei por onde se vaza O Lume
quando os ombros se quedam em receio
(queimando-me ao aroma bombeado do peito...)

Este é o beijo com que m’encobres ao sonho

Nascesse cada unânime gesto à bala
e em ti prevaleceria a combustão

Arde o quadro vesgo no foco da cidade

Às artes do corpo o fogo s’eleva:
as aortas transmudam-se em caos
e o olhar silva-te às chagas
Sibilinas...

Nenhum cristal m’evade o teu caminho

(Envenena-me a membrana tísica da noite...)

Afago a incendiada cidade das guelras
manejo as faíscas exaladas ao leito
engulo o rio estelar duma urgência
E brilham-me os dedos no táctil assombro da febre

(O carbono perfura-me os brônquios, Extasia-os...)

O pecado tem o sabor das tuas mãos

Possuo a essência estereofónica dos espelhos:
massas retorcidas d’ilusões
esgares d’androceus que vidram
musgos salinos por detrás rebramindo

Esta é a luciferina lembrança que me madruga à ascese do canto

(Estrangula-me a placenta púrpura que se move...)

O tinto amacia-te as coxas ao trago
o desejo acerca-me as nádegas ao rastro
a fragrância do sexo extravia-me o sono...

Esta é a rosa à língua:
o começo do Incêndio...

sexta-feira, 13 de Março de 2009

a alvorada dar-me-á o teu caminho

Diante de mim a sede temível duma paisagem de bocas ardendo
Diante de ti uma hipnose anónima que te desata à objectiva submersa ao ventre

Palpo a vertigem com os olhos envoltos de núbios talentos focais
Prossigo, às escuras, soltando a face aguada dum sonho sonoro-estival

restam-me os frutos ígneos da tarde:

os húmidos gemidos impressos na película fragmentária do sono,
os oásis desfocados de décadas d’estibordo,
os frenesis d’imagens que contrastam com a quietude temerosa dos montes

a memória prolonga-te mais um instante
(Soerguendo-te à álea que te descerra a ruptura às mãos...)

os lábios simulam a perpetuidade mineral do desejo:

rasuram-te ilusões em grafite esbraseada de corpos,
projectam-me em espirais polidas d’aves e romãs...,
reclinam-te acasos de panoramas repisados d’enxertias

por onde se extinguem as dedadas que a noite consome de vez?

Num plano de sombras retenho a amnésia da possibilidade,
desenhando papoulas nas brechas oxidadas do friso...

o amor ensina-me que o teu lugar não tem direcção
(Derramando-me às intempéries excessivas de um poço bramindo-te em sóis)

eu sei
tu e eu possuímos a fisionomia legítima das ínsulas
(soçobrando a fonte fosforescente das estrelas...)

Navegarei no amarelecimento da rota que me desmorona aos andaimes – seguindo-te...
(Despojando-me d’anseios, que devolvendo-me vida, te chamam...)

eu sei

a alvorada dar-me-á o teu caminho

(como luz imbuída ao lado esquerdo de mim...)

sábado, 7 de Março de 2009

no rumor palpável dos fogos

Estonteia-me o teu corpo aceso, transbordante...
Salamandras iridescentes retomam-te às faces do fogo,
pernoitando à grafia tatuada do corpo

Desfruto do teu olor melífero d’espasmos
(e da orgíaca morada das guelras...)
Gravo os teus gestos aos ínvios vínculos da volúpia,
projecto o solstício à fímbria atlântica dos membros,
amamento-te a loucura à proximidade das esferas
(Intensamente te procuro às sensações clareadas de alvor...)

Lâminas suaves tacteiam o fruto envenenado que, à boca, cintila
Carrego o suspiro nostálgico do imemorial dialecto:
reconheço as ilhas férteis por onde vogámos,
a beira-cama onde a bússola s’atordoa,
o límpido foco dos fenos às corolas,
e os dedos fluviais que, irrequietos, te desfilam...

Mastigo o intumescido plâncton das feras
fecundo os alvéolos ao lídimo quadrante do ventre
destino-me aos archotes cinzelados do peito
e às águas do corpo fortalece-se o desejo que m’incita

Fascina-me a metamorfose oclusa dos lábios
agride-me a cinza híbrida aos aros
(enumero-te os sumptuosos limites à margem...)

Quanto tempo reside para além do olhar?

Quantos planos tardios singram promessas por alinhavar?

Abocanha-me à íris um ardor estival
(repercutindo o sangue que me circula, sagaz...)

Cristaliza-se um desejo aveludado à língua
balbucio-te naufrágios à transparência dos espelhos
sufoco no simulacro imbuído da penumbra
(ausento-me no polposo crepúsculo, por ti, caiado...)

Quantos bulícios me desordenam o secular refúgio?

Desafio-te à longitude duma overdose de anseios,
perfuro a dúctil miragem dos linhos
e gemendo baixinho à ferocidade do patamar; profiro:
a noite é imensa em ti,
decifrando o rumor palpável dos fogos exíguos...

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

retenho o teu mais retinto sabor

Divido-me ao cerne quádruplo dum rochedo:
furtivamente m’encandeio nos interstícios insondáveis do tempo

nada me é tão indispensável como o teu asilo

O silêncio foi alinhavado pelo medo
Importa agora incendiar o olhar nos planos recuados da emoção:
adormecer a fala sustida ao sopro,
vacilar a voz aos sóis da antiguidade,
recordar cartas sufocadas, suspiros pendidos e modulações banidas ao retrato

é intolerável a ausência d’um caminho

O quarto move-se... as luas definham-se...
as paredes mobilam-se no desassossego inútil do brado

solidifica-se um desejo vespertino

Numa inquietação de pálpebras desprendem-me os íntimos anseios:
o suor alastra-se nas copas labirínticas das luzes
os dedos felinos recusam-se ao lusco-fusco da cidade
os corpos ancoram-se numa apologia marítima sonora

o amor é hieroglífico como as tuas mãos, digo

Aniquila-me o embaciado candeeiro que m’alumia aos escombros
acendo um fósforo; desabo-o à noite...
(E é toda a fé que me desacompanha apodrecida)

o reflexo mais obscuro da mente é uma infusão de serpentes amortecidas ao tacto

Retenho o teu mais retinto sabor aos lábios; desaguo nele...
amo-o miseravelmente como um náufrago incendiário
(num instinto erguido às sarjas tombadas d’ilusões)

nada se revela ao corpo como o poema

nada m’enrubesce os sulcos como o mar

A sede salgadiça da boca faz-me resvalar ainda em ti...
e recordando a suspensão baça d’um desenlace divino
é um ruído quase imperceptível qu’acompanha o tecer do meu mundo:
Tu

sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

o limbo do teu sonho é onde quero habitar

Experimento o pulsar dorido das águas...

Cíclicas medusas emaranham-se aos cabelos Como Heras
sussurrando-me o nome d’uma antiga e intangível paixão

o teu rosto cega-me por entre os traços inacessíveis do canto

Bagos...
são bagos que se desfazem Aos mares
como caminhos alucinados de pedras
submersos de trevas: Seculares

Busco-te por todos os recantos lendários do corpo:

és fascínio coabitado d'ardor...


Refazem-se os rios ceifados às mãos
deslizam os dedos perdidos às bocas
descascam-se os trilhos de fogos
(e romãs...)

de lábios pousados ao ombro amanhece-me a saudade, de ti...

Um rumor de sangue acende-me, o corpo,
por dentro
Um rumor de sangue demora-se, aos portos,
do amor

acosto o beijo onde t’aguardo e sigo...

Líquidas ostras escancaram-me memórias em lamentos De Topázios
incandescentes...
Sirenes oblíquas desmoronam-se ao sono lívido das seivas maduras
das aves...

Do peito uma voz explode como névoa:
e são os sucos quentes qu’encimam o umbigo
(onde te espero...)

poro a poro, desbravamos os abismos húmidos da pele

Estarás no limite dessas árvores costeiras
onde os gemidos marinhos assomam como frutos siderais
e é a tua íris Índica que m’embebeda à distância que me separa os lábios
das tâmaras
(e m’imprime a rota ao polegar...)

o limbo do teu sonho é onde quero habitar

terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

no vocábulo dos amantes

Não me pertenço...

Segredo aos mirtos as puídas constelações circulares
onde ao incenso se precipitam as labaredas truculentas
d’enigmas...

Escorregam os dedos pelo copo entornado em teu ventre...

As bocas vergam-se ao décimo gemido solar
quando a intimidade se recorta no lume que te tolda:
em nós

Líquenes sedentos desdobram-se ao beijo num ardor de tépidas urtigas...

Pouso os lábios por entre o silêncio dos teus olhos navegáveis
e uma onda de turquesas flutua no subterrâneo elixir que me turva: às folhas
(gastas, feridas, mastigadas à derrota
dos plúmbeos estigmas
outonais
)

Não me pertenço...

São nictalopes os corpos que se buscam (perdidos...)
em crepúsculos manchados d’incêndios

São silhuetas geradas que às paredes (me fervem...)
em arestas flutuantes de magnólias

Prometo-te a afogueada paixão que de súbito estremece
aos pilares...

Há uma dor primitiva de visco nas pedras
(que s’evapora na espessura abstracta das mãos)
Uma vertiginosa geometria atravessada de trapos
onde a claridade é centrípeta: à tua respiração

Há uma criança inaudível funda ao teu olhar
(no rosáceo crepitar dos lírios estivais)
Uma subtilidade noctívaga do teu eterno ressoar
onde o vocábulo dos amantes são brasas diluviais

Colunas de musgo perfazem o orifício d’éter que me devora...

Segredo-te à língua as lâminas que me trespassam sagazes
quando os pulmões te respiram como essência açucarada
d’espelhos...

(Cerro os olhos...)
recito-te baixinho...

Quantas ardências possuem os lábios que te desejam?

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

anoitecendo

Bate à noite, devagar, num fervor d’águia imensa
que poderia tocar a tonalidade desse último suspiro
Onde fui fogo – e fumo
(e como fogo beijei a fonte
às mãos...)

a alba perfura o peito de quem só vê o escuro...

Deambulo pelos textos feridos da memória
projecto o coração à morada que m’espelhas
e repetindo contigo o lustre fundo do cais
serei mar, em ti...
(apossando as espirais cristalinas
do amor)

Amanhece...
(anoitecendo em mim...)

Estarei na exaustão algemada Das sombras
e antes qu’a manhã me desventre os sonhos
(e devasse...)
vem ciciar-me aos lábios os tenros búzios corsários
onde a ventura s’arreia ao sangue de quem s’abandona ao lago
Esfaimado, Sedento
(sem norte...)

22/02/09

sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

É para além do tempo que te quero

Em dias como este cerrei Selene em papiro
para que tragasses cada inflamabilidade d’âmbar que me urde
por entre o moroso odre de trevos que m’imortaliza:
em nós.

Dos jarros transbordam as águas do canto...

As tuas mãos erigem os pilares matizados do amor
quando a uva se desfaz na ardência da língua
e os cabelos longos te serpenteiam o corpo (em faúlhas...)
no horto onírico das candeias mímicas das corolas

Quantos degraus possui a ascensão ao halo?
Quantas folhas de ácer ao cálice?
Quantas cordas mudas ao ventre?

É límpido o olhar com que m’acordas ao beijo...

Nutro do cosmos a película lúbrica das dunas
a matriz despovoada das acácias
o dardo d’ametistas de Cupido
(as lianas qu’assomam por ti,
Sibilinas...)

Apaga-se o pólen onde m’aguardo no teu nome (E busco...)

Existe um nevoeiro em cada lembrança que arde
existe um sonho em cada recôndito vogar da boca à pele

Descasco a escadaria d’ogivas que m’ampliam os lugares da terra...

Quis vergar o mundo ao desejo, evadir-me às rédeas da noite
e sublevar às pétalas as seivas que se fundem às mãos

É para além do tempo que principia a loucura que me une a ti...

Em dias como este fitei o astro líquido dos teus olhos
escrevi as linhas vesgas d’uma ânsia domada
e esbocei o poema que m’alimenta à flor
de ti...

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

Semeio-te ao sangue

Toma-me à cor Do desejo,
balbuciando os Sonâmbulos Cumes
que roçam a distância
(como gárgulas...)

És o reflexo mais puro das harpas:
A rareada lira que referve à rota Incrustada
em meu peito...

Às vezes sou quase tudo
(ou quase nada de tão pouco...)

Desfibram-se as flechas – Embutidas
(às mãos que te saboreiam,
aos arbustos...)


Nada se define ao gesto:
como o mar

Nada fulgura ao canto:
como o rio

Adormecerei fugindo ao sono – Das pedras
sob o Erguido Amor qu’a Purpúrea cítara Ousou
Encantar...

Escuto a treva – Das árvores: Soturnas...
(algemadas às fontes milenares
da matéria...)

Degelam-se os espinhos – D’argilas...
(na impenetrável galáxia
de jade...)

O coração engasga-se no compasso apressado,
do tempo...


És tu o meu incêndio:
entre Arcadas, Brisas e Diuturnas Taças
(Degustadas...)
às Coxas Peregrinas...

(Entonteço na doçura mansa,
do teu eixo...)

Terra a terra
,
estarei no incontido sopro Das esferas...
amamentando o beijo que m’atravessa - o sangue
Em semente....

segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Incendeio-me...

Boca a boca,
recolherei as conchas Lendárias das dunas
debruçando-me sobre as Geadas
Inversas qu’o asfalto Ceifou
(de vez...)

Estrangulam-me os diáfanos cristais das albas
Serpenteiam-me, aos dedos, as Areias Imemoriais,
das quilhas
Cintilam-me, ao peito, as cartilagens maduras
dos juncos...

(e arde-me!...)
arde-me o coração nos corais de salmoura,
do tempo...

(Um rumor de mãos migra na contraluz recortada
do corpo...)

Recordo-te às aves submersas
dos pulsos...

os teus lábios adquirem o odor das malvas,
a textura Tesa do anseio,
o sabor Intenso das searas
o oculto Cântico lunar

Crepitam paisagens adormecidas sob as Fosforosas cinzas,
do mar...

Enumero as constelações Líquidas (Desarmadas...)
Incendiadas à pólvora Calcária,
do rosto...

Desprendem-se as papoulas Esconjuradas (Gretadas...)
Abandonadas ao Precário olor
astral...

Ao sol dos meus olhos:
Teu infinito Marulhar...

Jorra a seiva pelos orifícios Espessos, Abstractos
Da memória...

(e arde-me!...)
arde-me o corpo Inteiro no desejo
de te amar...

16/02/09

domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Estarei por ti

Estarei em ti, meu amor...
atravessando o suburbano tremeluzir do mundo
onde os archotes Núbios do ventre
retomam cartografias D’estuques
sob a nudez cerrada que, em ti, Visto

Esboço-te, aos lábios, a madrugada d’Eros
(Alcanço as sombras dos astros que retornas)
e respirando o Hálito d’adocicados corpos
serei o contorno vítreo duma embocadura Ambígua
De luciferinos desejos, de penumbras...

Desencadeia-se o fogo na comburência Acidulada da tarde
Retorno, à fonte, as núpcias canduras
(e da perpetuidade Incerta que, em mim, s’abate)
serei abóbada, ou ângulo, de seladas Conjuras

Estarei por ti, meu amor...
de olhar cegado, desejo Ardente
(e de seladas bocas ao peito)
como essência nua,
Perpetuada
em ti

15/02/09

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

A frágua do teu trilho

Pressinto um rosto Intruso – Embrionário
salmodiando dilúvios em vinil barcas
que m’extinguem

Amanhece nos confins – Da minha noite...
(A cada massa disforme
que m’atinge...)

Teus dedos sibilinos pernoitando as amálgamas Tesas,
do meu corpo....

Tua boca Aveludada pousada Em Tecidos – de sobrepostos
desejos...

O teu olhar despe-me…
(E eu, em ti,
me movo…)
Palmilhando ao tacto – subjugado
do desafogo…


As artérias recusam-se a estancar As lembranças
que coagulam à raiz,
dos velos...

As insónias acercam-se dos aromas Nómadas
Exóticos,
da pele…

Possuo a Embriaguez cortante – d’um influxo…
(A cada Ascese que transponho
nos teus braços...)

Escorre a resina pelos lábios Abertos, Chupados
Oclusos…


(Lentamente me desfoco no Silvo esconjurado
das gazuas...)

Invade-me o receio de acordar sem ti!

Morde a estranheza qu’Ao Mundo s’abate
Cede ao faustoso caos – d’um trilho
(E povoando as mandrágoras, Do teu nome
pernoita à polpa fresca d’um Estio…)

Digo: o teu olhar...
(E respirando pelo rumor palpável
d’intumescidas línguas)
Abandonar-me-ei à fibrosa – Frágua
Com que m’excedes...

12/02/09

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Sustido Sopro de Vida

A tua essência Núbia atrai-me...
Embebeda-me.

Longamente me demoro Na tua imagem,
na expectativa inquieta de possuir uma gota
do teu brilho...

Atordoa-me o reflexo Ausente do espelho
o aplainado Bálsamo do poente
a sincopada Nebulosa que me cobre
o esvaído ímpeto d’uma Flecha veemente

Profícuas elipses no incutido jacto Inerme...

(Estremeço...)

Fecho os olhos...

Excessivos sentimentos acompanham-me As fissuras – do corpo
as náuseas Rachadas – do Sonho, o sustido Sopro – da Vida,
a mácula Encardida - de Pavor...

Talvez pudesses, ainda, Escutar o cântico das Horas,
e Sob o principiar do circunspect(r)o Desespero,
Prantear as beatas qu’emanam – da terra, Cristais
(d’Areal!)

Sonhei com uma obtusa sensação de derrota
um mendigar tortuoso nos apocalípticos subúrbios,
da peste
Uma saudade mais qu’ascética:
Execrável
Uma paixão mais que íntegra:
Corpórea

Procuro a vocação Derradeira, d’uma incógnita estiolada
De frio.

Deambulo no calafrio Necrótico, d’uma gnose interpelada
De claustros

(Esparzo-me...)

Arrefeço...

Porque me apagas, agora, se eu nunca te quis apagar?

Insinua-me o lirismo Equívoco – dos sonhos
(Marginalizado de revulsivas antípodas...)

Atinge-me com o som da Harpa – Incólume
(O escoar d’ exíguas alegorias...)

Profícuos nevoeiros recordam-me o descaído Aparo, das tílias...

As tuas mãos modelam-me...
(E eu desejo-te!)

Serei sempre tu enquanto for alguém...

07/02/09

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

na incandescência do desejo

(Opiáceo olhar Que me devoras
possuo o mundo quando a tua nudez
m’envolve...)

É sempre Geada quando os destroços s’incendeiam
às estepes...
E os Corpos formam a vertigem – Da cidade...
(abandonados ao silêncio,
da despedida...)

Penetra na textura Fulva – das dunas...
Inunda o alfabeto desfeito
D’alvura...
E gesticula como um animal Réptil
(Inquieto...)
Mergulhando à bagagem qu’os pulsos detêm,
indecisos...

«Por onde te mastigam os desejos, sequiosos?...»

Pérola d’almíscar cobrindo, o membro, Da noite...
Ciclicamente
m’evado nos pólenes – do teu eixo
(Metamorfoseando-me em desejo que te lambe;
E Sibila...
)

Já nada me cega a luz Onde t’encontro
Despontando, à boca,
a soterrada brancura,
que m’aquece...

(Extravasa, ao toque, a Euforia convulsa
Que perdura...)

(Conspurca, ao ventre, o Dócil gosto
Que te murmura...)

«Por onde se forja a fome do etéreo fervor, da folia?»

Invoco a libação náutica – Mordida... Morna
Em movimento...

É sempre Voo quando os vestígios mornos s’incendeiam
E um rastro de fósforo m’abstém
(de Sentir...)

Seiva – d’ amoras, escorrendo no azulino horizonte
Da Fervura...
«Por onde te saqueio o Interminável louvor – do anseio...
transpirando às nervuras Húmidas, Impetuosas, Labirínticas
da pele?...
»

05/02/09

quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

na sinfonia cósmica d’uma travessia a dois

Nunca soube de onde vem a tua voz
quando o sentimento a desperta, Num beijo...
E é o teu vulto qu’avança na caligrafia Desfocada
d’um sonho...

«Talvez o amor seja apenas um barco d’asas», disseste...
Deambulando nos Ousados punhos d’uma maresia
Irrequieta (Inconstante...)

Transborda a Difusa espuma das margens Intumescidas
do teu gesto...

Trepida o alaúde às cordas etéreas
que m’ecoam...

Pousa o rosto nas Águas fulvas
do meu canto...

(Sentes O vento, agora?)

Colherei os frutos d’um suspiro Ténue – do olhar...
Como se deambulasse nos corais milenares
D’um estuário
E à fala se despenhasse o vórtice
Da brandura...

(Sentes O desejo, agora?)

O destino carrega a sinfonia Cósmica d’uma travessia
A dois
Onde o Sol se derrama por entre a amena distância
que me separa os lábios
Dos teus...

Traço, a versos, o mapa
do meu trilho...

Acolho, às pálpebras, a visão
das tuas...

Latejo, em fogo, na coincidência
d’um idílio...

O poente está incluso nas tuas mãos
E nelas habitarei as linhas que desfazem O Olvido
em açucenas Ardentes
(De achas...)

Sentes-me em ti, agora, Como eu te sinto em mim?

05/02/09

terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A noite sustém o meu último sono

Foi quando a tarde veio,
que m’encostei aos teus braços
e tu, estendendo-me a mão,
juraste qu’éramos eco da mesma imagem
(da mesma luz...)

Que moldura arcaica te persegue agora O caminho?

Herdei das trevas o convívio fechado
dos círculos
as abstracções retrógradas,
das estantes
o olhar errante
do mutismo...

Escreve que o lume te inquieta
Que o tempo t’extorque o espaço
E que a alma sustém, em chamas, a utopia viva
por realizar...

Que moldura arcaica me persegue agora O caminho?

Escrevo-te qu’o silêncio me perturba
Qu’a saudade me fustiga – E devora
E qu’o Inverno me consome, o corpo Fraco
de t’esperar...

Marmóreos gritos povoam as rédeas do meu peito...

Foi quando a tarde veio,
que m’encostei ao teu ombro
e, te amando os gestos,
jurei qu’éramos reflexo do mesmo sonho
(da mesma voz....)

Quebra em estilhaços as tramas
que me definham
Interroga a emoção que s’expele
de mim
E guia-me:
Nos teus passos...

Agora que a noite sustém o meu último sono

03/02/09

segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

restitui-me a cor com que te lembro

Soltam-se as marés enfurecidas pelo desespero – da respiração
Veemente
e à cal adormecem as imagens que o sono já não Evita
(Entre geadas – e ébanos, impressos na memória
dos dedos...
)

Há uma altura em que a noite m’encobre
E ao transpor – do grito, se sobrepõe o limbo
do Sol...

(Conheço-te pelos lábios...)
pela fragrância dócil – do pescoço
(Pela espessura fresca dos plátanos)
pelas opalas prostradas - Ao sonho...

Pequenas faluas esboçam-te pelas margens, do rosto...

Restitui-me a cor com que te lembro à deriva,
nas nervuras núbias de um ocaso
de vales

Há frutos que nascem da boca, do verso
quando as névoas te projectam - da madrugada...
(sob a fronte Vesga,
da voz...
)

É quando tu chegas que uma dicção – d’aves
(m’evoca...)
cada véspera vertida em sensações,
lacrimais...

Emerge, ao cálice, o êxtase que a vida te negou

Assoma, à copa, o brilho incólume que te levitou

Que língua me soletra os tons – da Aurora...
à passagem da estação enunciada
(pela trégua?)

«O amor», disseste...
como se as palavras s’estendessem pelo canto do mar
e na direcção do vento somente se debruçasse esse limite – do tempo,
onde Eu (e Tu) vagueamos, repetindo os gestos plúmbeos
da foz...

02/02/09

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

Magnetiza-me ao Império dos Odores


Ravina...
Atiça as flâmulas Tesas
que m’invocas...

Roça a pele que rosa e a rosa à pele...

Acolhe o corpo que te pertence
na epifania Farejada,
de teus gestos...

Teço, aos lábios, a Grinalda azur
(que m’arde...)
Bebo, aos olhos, o acorde Empíreo
(do Sonho...)

És tu que me devoras – Os sentidos
latejando à Sacra Fonte
Langor (E Ágape...)
Em perpetuidade, Carmim...

Teu palato na nascente lânguida
do bulício...

Teu arcano Indómito,
vogando à palma
(que t’exsuda...)

D’infâmia – À boca, Sou lenda esfíngica
(Em ti...)
Colapso Ardente,
Fecundável Lua
(Revoadas de versos,
que t’incitam...)

Desfaz-se, em cinzas, o blasfémico – Passado
qu’ao longe m’ardia...

(Meu ardor resgatado, nutrido, perpetuado, Sublimado
Por ti...
)

Teu mar d’aromas (Ao rubro...)
Onde sou degelo cioso, Insaciável
De ti...

São os cabelos que te firmam
(Ao meu seio...)

É teu desnudado timbre
(que m’Amaina...)

Ravina...
Magnetiza-me ao Império (dos odores...)
Alma de Fogo, Leito Onírico,
das minhas preces...

26/01/09

domingo, 25 de Janeiro de 2009

Nas mandíbulas fixas do desejo


Experimento o estelar tumulto – Das sombras
na efervescência Espelhada
(Do teu augúrio...)

Num ascender – De lágrimas
dormito no crepuscular abrigo Inerte
(prateando o contorno naufragado,
do teu peito...)

Corruptos dedos estendem-se pelos Sulcos
do sonho...
Magmáticas árvores assolam-me pela Véspera
demente...

Teu eco na densidade suspensa, da memória...

Teu lampejo na abafada assimetria, Dolente...

(Evaporações – de gritos, no calcário abstracto,
do solo...)

Evoca os passos que s’evaporam na calçada
(dos prantos...)
Saqueia o Letárgico vértice Demente
Ressoa à quilha puída – De tréguas...
(Restitui-me às ruínas híbridas
do tempo...)

São teus os subterrâneos fluxos
que me povoam
São tuas as desregradas Penínsulas
que m’esfolam

(Míseras grafias sobrevivem aos umbrais vestígios,
do templo...)

Experimento o incendiado abdómen – D’um prelúdio...
na apoteose desmedida
(Do teu beijo...)

Exercita-se o corpo no precário Equívoco
do sono...
Esfumam-se – Os charcos, no oblíquo Rugido
do canto...

Tua lâmina rasgando a Derradeira cinza
(Arcaica...)

Teus ombros derramados nas mandíbulas fixas,
do desejo...

Quebra o rebordo opaco – Das dunas...
Ascende ao Intangível curso, das Odes...
Eleva, ao Fervor a frisada, Volúpia...
(Perdura, em mim, como quem foge,
do tempo...)


Interditas línguas movem-se, de boca em boca, pelo ar...

Sulfúricas missivas entrançam-me, pelos dedos...

Escorre, ao sangue, a alegoria Atlântica,
do teu berço...

(Quantas metamorfoses habitarei
...nos teus braços?)

Dialogam os lábios
(onde o silêncio os desmente...)
São filamentos d’anseios – que m’esboçam
amamentando-me a boca
No teu enlevo...

25/01/09

quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

toma-me em ti


Desabrocha o sonho no diálogo difuso
d’uma utopia...

Exala o canto no desferido elo
d’um enigma...

Tua essência na textura ébria, dos meus lábios…

Teu zénite soletrado às veias, que t’erigem...

Soerguerei do bálsamo (Voltejando...)
em sincopadas encostas,

que te zunem...

A copa onde te ergo é o mirto que t’aguarda...

Tomba o vulto nas sépalas, que te tingem...
(E chama...)

Condensa o verbo à caligrafia, que t’abriga...
(E vaza...)

Quero-te como desígnio, Diamante robusto
que s’anuncia…
Quero-te como cálice, Vertente oculta
da minha via…

São escarlates os desejos que m’assimilam...
(Em surdina sumptuosa, que m’abrasa...)

Desejar-te é cinzelar-te – Ao corpo, a voragem
das pupilas...

Amar-te é altear-te – Ao abandono, aglutinado
de vagas espiras...

(Toma-me em ti e cerra-me os braços, aos teus...)

Sara, a quente, cada feição turvada vazada
Em fissuras...
Cessa, a frio, cada infusão amputada esfacelada
Em retinas...

Estarei no azulíneo travo que t’enuncia (às mãos...)
Como amante, como berma
como escaldado ardor patente:em nós...

21/01/09

segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Sucumbo...


Sucumbo ao abaulado tecido que me esparsa
de olhos fundos no granizo despótico,
de teu gáudio...

Fulgura, a teus braços, a ruptura enferma
do meu medo...

Escorre, da boca ao sangue, a cilada desabrida
de teu berço...

(Meu palato cravado no enlevo,
do brasido...)

(Meu marejado – Rosto, nos alvéolos,
das fachadas...)

Súcubos retomam às diáfanas arcadas d’absinto
Cenobitas desfilam em fúlgidos coágulos turquesa
Lombadas d’anseio instilam-me à contraluz
(de teu jade...)

Visões d’arcadas bifurcam-me – O espaço...
Convulsas rachas dardejam-me, O vergel...

Lúbricos halos volatilizam-me – sob o fulcro,
de Febo...
Porosas lágrimas cavam-me a tez,
ciente...
Aturdidas hastes – no derruir perpétuo
(dos teus laços...)

Taciturnamente m’afundo nas crateras imbuídas
(de cicutas...)
São amoras, e Violetas, – Obstinadas...
em cada emudecido Outono
(que te retoma...)

19/01/09

sábado, 17 de Janeiro de 2009

Prémio Dardos


“Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger, emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc., que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.”

Agradeço a distinção que me foi atribuída pela poetiza Paula, autora do blog Esperança (http://paula-esperar.blogspot.com) cuja escrita muito admiro.

O prémio obedece às seguintes normas:

1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos.

Como tal, atribuo o Prémio Dardos aos seguintes blogs, pela qualidade que lhes reconheço:

http://a-unica-real-tradicao-viva.blogspot.com/

http://poemassemrima.blogspot.com/

http://verderude.blogspot.com/

http://ortografiadoolhar.blogspot.com/

http://penichecarlos.blogspot.com/

sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Demando-te...


Demando o beijo, com que te demoras
no solstício figurado,
do teu peito...

(E sucumbo...)

Desdenhando as horas – em que, em ti, me vogo
fecundando, às mãos, as achas vitrais
do meu desejo...

Esgravato a hierarquia, das memórias
Pernoito na película oxidada – do tempo
Conspurco-te no táctil elixir, das searas
Sou perfil, constante, à boca plúmbea, plangente

Indizível t’afago ao segredo labial das retinas...

Indizível t’aspiro ao rubor sideral dos timbres...

Pilares d’orquídeas vedam-me os quadrantes, rútilos
do meu ímpeto...
Tempestuosos pântanos aguardam-me na tarimba, tísica
dos truncados...

Teu orvalho, rútilo, no abismo crispado d’ardor
Teu punhado, dúctil, no remoto semblante, do caos
Teu louvor, baço, na primavera esfumada, no meu rosto

Pigmentos opacos coloram as silhuetas dos ocasos

Silhuetas ténues povoam o plasma dos cedros

Árctico grito perfura a passividade vegetativa dos penedos...

Demando o arauto fervor, dos teus lábios
para que me sintas em cada alba que m’advém
d’alvor...

16/01/09

segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

metáfora rubra no fogo-fátuo do desejo


Anseio desenhar-te – o corpo, às mãos...
Aprimorar o traço, à língua...
Verter (pecados...) – à boca, Esguia...
Abandonar-me ao aprisionado – amargor,
d’uma elegia...

Suprimo-me na amarga – dobra, d’uma bravura
(Extinta...)

Circulo nas dedadas lânguidas (que me cingem...)
Incendeio-me no lume – qu’ao longe, m’atiça...
Faço-me incógnita dúbia,
do meu destino...

Há uma hora, em cada dia,
em que me quedo indubitavelmente,
em mim...

Há uma hora, em cada dia,
em que sou íbis imbuída
em ti...

Dantesca gávea entreabre-se no lusco-fusco d’estreitas travessias...

Siderais chávenas circulam próximas da noite fria...


Há uma hora, em cada dia,
em qu’irrompo, da ira - À haste!
(De mim...)

Meu rosto esfumado no epicentro do teu ermo...

Meu segredo grávido na giesta do teu esboço...


Jorra o hálito lacerado, na lacuna – das lajes...
Trepida, o tédio, na lasciva aspiração – do caminho
Levita, o licor, a leste (Do veemente mastro...)

Tuas mãos no matagal ambíguo – d’acesas íris...

Teu meato malva na ardência do meu desejo...

Acabrunhadas nádegas na fervura que te consome...

Esbraseado estigma – na fronte, escarpada
(que m’entoa...)


Noctívagos rostos desvendam os néons oceânicos qu’inundam...

Anseio esculpir-te – o corpo, às mãos...
Soçobrar-te a ogiva por onde m’inebrio, d’odores...
Emoldurar o mirto na nudez que te murmura: «Fica...».
(Coincidir na grafite – rasurada,
dos teus dedos...)


Há uma hora, em cada dia,
em que anseio ser somente parte – De ti...
Metáfora rubra, que me mira
no fogo-fátuo, dos meus lábios...

12/01/09

sábado, 10 de Janeiro de 2009

Sou eu que gemo à porta do teu sono


Bago a bago te ascendo
(E transpiro...)

Um caudal – de sílabas, ecoa na cúpula degustada,
que te enraíza...

No cerne onde ancoro é o colmo que me circunda...

Na bainha: o cerco
(E a carícia – da ascese...)

Na cadência: o torço
(E a alvoraçada centelha, que te alumia...)

Nodoso corpo assoma à menstruada avidez que me preenche...

São charcos d’aromas que me prolongam,
os sentidos...

São amêndoas bravas que me pendem,
à boca...

São teus cerrados lábios que m’amornam,
o corpo...

São teus pulsares – d’anseio, que m’aportam,
a cada dia...

Teu dorso d’âmbar à deriva no meu sonho...

Cintila a clave que à noite cicia
(E padece...)

Sussurra a saliva no beco,
do teu recato...

Decifra, ao antro, a odorífera curvatura,
do dardo...

(Desfazem-se os dedos na polpa fresca,
dos damascos...)


Minha ebriedade eclipsada no desnudamento, do teu desejo...

Sou eu que gemo à porta – do teu sono...
para que me oiças no avaro prolongamento,
da tua voz...

10/01/09

quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Esvazio-me


Como mar que penetra a terra
(E t’aguarda...)
Esvazio-me em cada pausa que me sangra,
de ti...

Desabo ao infinito
(que ao olhar se demora)
esculpindo as palavras - que te amam
os sentidos...

Cataclismos – de névoa, Rasgam-me o hímen
Da malva...

Arabescos – Mutantes, metamorfoseiam-se em anémicas persianas
D’epitáfios...

(Habito, nos teus lábios, a voragem,
do meu sonho...)

Bebo as amoras com que te trago – ao peito
(E danço...)
Na vertigem colossal,
do meu desejo...

(Sobre as pétalas, da noite...
a enseada incrustada
do meu trilho...)

Basta-me.
A tua presença (No vácuo...)
para que saiba que é a tua ausência que fica,
e não outra...

Resta-me.
O pulsar louco (Febril...)
de quem é sórdida pujança, açulada
d’ amanhecer...

São sonâmbulos escombros, que m’anoitecem...
quando as mandíbulas do sono, são suavidade - sísmica
(na exígua incandescência,
que m’abate...)

São teus dedos transversais, que me desvendam – no marulhar convulsivo
do meu mundo...

São teus pés, d’ardósia mansa, qu’encontro – no horto oblíquo
dos meus passos...

Sou eu: Parte de ti e Parte do meu mundo
e mais parte daquilo, que m’invocares...

08/01/09

domingo, 4 de Janeiro de 2009

sou ígnea luz em ti


Como ave perscrutando os céus:
Em ti mergulho...

São maresias que te definem – o rosto...
reinventando-te nas claridades orvalhadas,
dos montes...

De trago, em trago, é o estremecimento da voz,
que s’entorna...


O vento já não t’apaga o dócil rastro,
à pele...

Sobeja o beijo – com que me ardes (insana...)
sob as paredes mansas que me turvam,
de ti...

A língua tacteia o ventre ausente – na alba...
Os dedos mastigam-te as pálpebras, do desejo...
Os gestos repetem-se ocultos,
no vazio...

(E é o teu travo que procuro,
em mim... )


Pouso os lábios na face obscura,
do teu sono...

Possuo resmas d’esgares (carmins...)
pernoitando o despovoado silvo,
do teu olhar...

Dissolve-se a areia numa fúria de cinzas
( insones...)
Farrapos de sangue,
névoas,
ansiedades...
São enxertadas anémonas (açucaradas...)
às mãos...

A noite ferve nas águas mansas,
que te respiram...

E é nos acordes – do corpo, que se delineia o desejo
(que assoma...)
Onde sou sombra e luz
(em ti...)


Quero adormecer de lábios centrados – no teu peito
contar-te as abóbadas que nascem dos olhos
(que t’esquadrinham...)
E vagabundear-me – no sonho
(que se abre...)
de cada vez que os sóis m’elevam o caminho,
a ti...

Loiríssimos meteoros desfazem-me,
em fogo...
(que me habita...)


Há passos, e velas
(que perduram...)
onde sou ígnea luz: De terra (E mar...)
em ti...

04/01/09

segunda-feira, 29 de Dezembro de 2008

Invade-me a vontade de te ler


Invade-me a vontade – de t’esculpir
às mãos que s’incendeiam,
no teu desejo...

Passo os dedos pelas nervuras – do teu corpo,
rasgo o ventre na tocha que s’ateia, d’escarpas
estanco, aos lábios, as linhas salientes - do teu ventre,
retomo, à boca, as sombras que me cegam (e fendem...)
E sou eu (E tu...) escutando, de Cassiopeia, o segredo lunar,
do teu sonho...


Desfolham-se os lábios onde a ardência arde (e assoma...)
expõem-se os seios à noite que os liba (e humedece...)
derramam-se cálices – de fogos, às mãos desnudadas (que te amam...)
E torno-me tu (E eu...) entornando os olhos à apoteose,
do teu beijo...


Gravar-te-ei o rosto – no peito
sussurrando-te o suor, do corpo
por entre as cicutas,
do teu mar...

Invade-me a vontade de te moldar os lábios (aos meus...)
salivando o dedo (que te desce...)
Sustendo o voo – da madrugada,
no olhar...

As sedas desabrocham em lágrimas, que t’inundam...
os cabelos entrelaçam desejos entesados – de sais...
as bocas delineiam-te - os passos, em surdina sumptuosa
de cristal...

E sou eu (E tu...) de braços estancados
sob o vento...


Invade-me a vontade de te devorar às mãos (que te cingem...)
consumindo as chamas - que m’afloram
de cada vez qu’a língua s’esconde - e brota
(de mansinho...)
saboreando-te em cada dócil aroma, que se desfaz,
em mim...

29/12/08

segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

gravando o teu sorriso na pele


Grito o desânimo:
em voz alta, triste, inacabado, arruinado
(como eu!...)

Fumo as gotas do diário onde te encontrei...

Houve um momento em que deixei de sentir,
um momento em que aspirei ser tudo aquilo que me deste:
Nada.

Por vezes é no vácuo que está a grande fuga...

Abandono-me à tarde como outrora me abandonei a ti:
mergulhando no abismo, pensando ver o fundo

Vou abotoar três vezes a memória,
cuspir o tédio num segundo
e elevar o mundo
(num suspiro...)

Fecho o diário. Esqueço-te.
Acordo...

Estou novamente no fundo do nada
(e no início de tudo...)

Apetece-me respirar as estrelas que vêm
de cada vez que me levas,
para o mar...

Conheci o desespero da noite ausente,
aportando no silêncio das imagens
como a bruma, nos teus cabelos...

As noites tornam-se lápides quando não há – palavras
(que durmam comigo, por ti...)

Um cheiro nauseabundo a éter veio murmurar-me
aos ouvidos...

Tentei gravar o teu sorriso na minha pele:
despertá-lo todas as manhãs
e sugar-te as lágrimas, com os lábios
(em flor)

Há coisas que não te consigo dizer...
(por isso falo-te dos oceanos)
do teu reflexo no meu retrato,
da textura das pálpebras,
do teu beijo,
das sépalas,
das estrofes,
da cor...

Há uma promessa em cada lua que parte...

Há uma rima em cada anagrama ancorado,
no teu voo...

(Um enxame de feixes foca-me o olhar,
ao longe...)

Habito o teu gemido na palma do umbigo
descobrindo a inflamabilidade do infinito,
no teu corpo...

Julguei ser um viandante visionário,
mas de traje vestido tornei-me:
um círculo

Nada poderá ser mudado:
o início e o fim são um mesmo
(mas tu e eu também...)

Adormeço nas palavras. Lembro-te.
Amo-te...

22/12/08

alucinações...


Desafia-me a vontade de te amar na claridade orvalhada
das pétalas...
Sublimando conchas nos cabelos oblíquos – do desejo

a noite conhece o desespero de quem povoa os interstícios,
da saudade...


Folheio os nevoeiros estampados nas vidraças fecundadas – d’enxofre
(E são as camadas da memória que se destapam)
debicando as migalhas desencontradas,
do tempo...

rostos clandestinos povoam o brado vogado,
das dálias...


Os dedos desafiam os contornos sibilantes, da pele...
amachucando anémonas, nas palmas sulcadas d’espinhos

a roupa pende do corpo aglutinado d’ esgares vibráteis
(de cardumes...)


Sufoca-me o pesadelo d’entardecer
(sem ti!...)

O sal cicatrizou-se nos lábios selvagens – do anseio
Venerando o corpo num leque de vertigens amadurecido,
d’odores...

Estrelas cadentes sobrevoam os corais – dos limos
comboios triangulares delimitam feixes de moluscos, baldios
amendoadas vespas agonizam no desmoronamento
(das montras...)

alucinadamente te alucino, na minha alucinação...

As mãos descobrem o corpo – escondido, nas águas açucaradas
das pérolas...

(Passo as mãos pelo húmido corrimão
que me leva, a ti...)

o celofane embrulha os quartzos laminares,
das plumas...

Visto-me do suor do teu corpo,
reinventando-te na bainha abstracta,
das esferas...


sexo hirto, rubro
(liquefeito...)
boca mansa, esguia,
(imperturbável...)

cessa o ruído no rodapé da cidade...

Um meneio, um estampido, uma erupção,
(Ou uma luta....)
São os soníferos – dos sonhos,
São as derrotas apinhadas de cartuchos suspensos, de visco

alucinadamente me alucino, na minha alucinação...

São estrondos mentolados d’avenidas atapetadas – de gente
são berros e aberrações
são ácidos, são motores,
são cascas e destroços,
(sou eu...)
... É a dor!

22/12/08

sábado, 20 de Dezembro de 2008

lembro-me do que (não) fomos


Fugi de ti como quem foge do impossível:
de braços retorcidos, olhar vago
e ombros enclausurados
(na distância...)

lembras-te?
éramos rumor d’aves a antecipar a queda
(intransigente...)
éramos dissabores semelhantes a arquejar na penumbra
(perpetuada...)
éramos derrota extenuada a percorrer os umbrais
(da manhã...)

Reencontrei o aroma dos espelhos, na tua mão
enquanto beijei - os céus,
no teu berço...

E foi a muda despedida que m’obrigaste a cumprir
(que me cegou)
quando o vácuo - do teu nome, m’absteve
d’existir...

Os meus olhos foram os teus até no silêncio
(que pedias...)

lembras-te?
das janelas caiadas pela voz que te mentiu
(sussurrando...)
«apenas uma ferida que sara,
apenas um retrato que, ao longe, fica...»


(nas tuas melhores mentiras encontrei as nossas grandes
verdades)

lembras-te?
quando te procurava nos corredores desertos
(para que te ver sorrir?...)
quando te negava o que querias só para que me agarrasses - a mão
(e pedisses, baixinho?...)
quando nos fingíamos amantes
(só para que o pudéssemos ser, na verdade?...)

A dissimulação da verdade sempre foi a nossa arte...

Sonhei contigo... (Uma e outra vez)
Mas já nada restou de nós, senão esses diálogos ausentes
(simulados...)
onde nos debruçámos sobre as grandes teorias da Arte
enquanto nos amávamo-nos discretamente,
pelo olhar...


20/12/08

Amanhecer em ti


Dialogam os lábios pelas pautas rasuradas (da pele...)
incham os resíduos enlameados - do corpo
ardem bocas, vergam-se insónias, calam-se tormentas,
respira-se o sono
(E nasce-se...)

Alugo o olhar às paredes que s’apertam no túnel – das memórias
desatando o desejo qu’eclode em noctívagos gemidos
(que m’acendem...)

São as alucinações que m’estendem nas geometrias límpidas
da tua mão...

É na ferrugem carcomida das heras que a mente ferida – se despe
(E dorme...)
devotando-se à sombra que se move, sem fim...

Lambuzemo-nos juntos na clareira iluminada que amaina os dedos
num desassossego - de fogo...


Sobrevivo ao frio num casulo d’esperanças, que m’acolhem
sob o vago elixir da utopia que se abre – p’ra nós...

Vem contar os fios que se tecem no beco – d’um segredo...
elevar os braços ao olor, d’um beijo,
amanhecer (comigo...) nas vertentes tépidas d’um lençol
alimentar o lume que brota do solo debruçado
(do mar...)

Inspiro as frestas d’um lugar que não me pertence,
como se te tocasse pela extremidade - das nuvens
na procura – do teu amor, num sol d’Outono, latente

Em que equinócio se veste o sonho, das palavras...
quando a transparência do mundo s’abate – no meu peito?

Inverto os passos evaporados, do sono
abraço as lembranças em que me torno tudo (contigo...),
apago lágrimas num gesto - de névoa, veemente
(E fujo...)

A ausência torna-se densa... imensa... brutal!
E é no céu aberto que se titubeia – o meu destino:
Amar-te...
(em cada fragmento renascido que se derrama,
em ti...)

20/12/08

sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Fica comigo na vertente púrpura


Num gesso – de lágrimas...
quebro a estrutura da frase
recolhendo-te as pálpebras, devagar,
por entre um murmúrio - de lábios
que se veste, de ti...

(É a frágil luz que m’acorda
e a saudade diluída no renego,
da manhã...)

Escrevo, nos teus olhos, as linhas
do meu sonho
debruando o rosto – que s’espelha
onde a emoção se demora
(E arde...)

Rompo as cortinas do tempo
rasgo memórias
respiro fogo
e desaguo, (em ti...)
Tingindo a folhagem, do meu sono
por entre a espuma – de névoas
que me traz, a ilusão...

Um rio desagua na voz – que te ama
desnudando o desejo que me venda os olhos
(ao mundo...)

Escuto-te nas palavras que te sussurram desejos, vertidos
pela tarde...
E é a vontade de te transpirar, qu’advém...
de reflectir os lábios, no teu peito
de escalar-te o ventre, sobre as terras
de domar o horizonte – dos teus medos
de t’enlaçar - o corpo, onde o desejo nasce
(E foge...)

Repousa a face qu’a saudade sustém
(aos ombros...)
numa barca d’amor que t’eleva os braços
(a mim...)

E fica comigo na vertente – púrpura
(dos meus dias...)
como voz, como luz,
como amada prece, vertida
em nós...

19/12/08

quarta-feira, 17 de Dezembro de 2008

Em mim te Poemo


Estava decidida
A amputar de vez o sonho,
A incendiá-lo num qualquer passado,
Sem nada reter.
… Até te encontrar.

(O que te encubro é o que oculto de mim…)

São sonâmbulos corpos, os nossos
De definhadas asas, perplexos no voar,
Somos desejo dilapidado,
Ténues rumores de versejada por findar

(São tuas as palavras que suspiro…)

Não é pelo meu olhar que t’avisto,
Não é pelos meus dedos que te toco
… É no que versejo que em ti me sinto.

(Há dias em que tudo falta.
Até tu…)


Fecho os olhos… o sono!
No meu rosto pressinto linhas
Que não conheço

(Há um fragmento de mim que te chama…)

Abraço-te, sabendo que não és tu qu’abraço
Abraço-me, mesmo já sem saber quem sou

(Anoitece devagar.
Eu, tu e o dia…)


E é no reflexo do tinto, que me quedo
Tragando da sombra a luz
(do desejo…)

Se aqui estivesses,
Estendia-me ao teu lado
De olhos totalmente cegados
De lábios silenciosos, entreabertos
Sem respostas, nem perguntas
Somente morrer (uma e outra vez)
Lembrar o corpo... Amar.

(Sou fogo ardente em ti…)

Desperto todos os horizontes,
Escarlates e incandescentes
Em que me rendo,… a ti

Num só trago te recebo,
E teu gosto

Num só devaneio te asilo,
E teus braços

(Soergo das sensatas correntes
Acarinhando, demoradamente, teu corpus)


É abrupto o desejo que conduz à luz
das velas…
(Aguardando a chegada)

É auspiciosa a tentação que hesita
entrar…
(À porta)

É íngreme a loucura que conduz ao incessante
pecado
(Do corpo)

Negar-te seria esquecer-me
Apunhalar-me e matar-me
(de vez…)

Mesmo no meu silêncio,
Sinto o teu vulto,
Mesmo quando nada digo,
Há palavras por exprimir.

(Não se dissolve o que se tece
Não se finda o que se derrama
Não se esquece o que perdura)


No horizonte que me resta,
Serás presença encantada,
Que saudade assim trajada
Não se consegue despir.

Uma linha marca um rumo:
Desejo de amar e amar demais…

15/12/08

sábado, 13 de Dezembro de 2008

O olor do teu desejo


Apetece-me conspurcar-te na essência, do meu ser
Sombreando – à boca, a submissão
da tua pose...

Respiro a forma – do teu anseio
afundo-me no dorso, das tuas águas
lambo as lombadas, das tuas sílabas
foco-me na cor,
com que t’anuncias...

(E amo-te...)

Sorvendo os lábios – que m’invocam
afagando o ventre, na tua tesão
gemendo ao ouvido, o meu deleite
tragando o cheiro - que s’evapora,
nos lençóis...

Dá-me os dedos com que te tocas,
(E segue-me...)
Penetrando a língua, qu’escava
a ardência lambuzada,
da minha pele...

Esfrega-se o rosto nas sombras atribuladas,
das tuas pernas...
(Enquanto as pestanas s’agitam,
nos poros esbraseados
que s’esporam...)

E é às bordas – da chávena, que t’inspiro
tragando o tribal olor
do teu desejo...

E é nos frescos veios, que fervilho
sob as areias - rasas,
do meu ardor...

E é aos maduros frutos, que m’adio
colhendo os gestos – adocicados,
do teu gozo...

E é nas acesas veias, que te degusto
fitando olhar que me domina,
a emoção...

(E desejo-te...)

Acariciando a corola qu’à noite se abre
(e humedece...)
na incendiada - espera,
do teu odor...

13/12/08

sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Dilui-se o olhar que t’aguarda


São os olhos – que te amam
sob o anis que se dissolve, nos lábios
(e t’aguarda…)

Definho vagarosamente
(no meu sonho…)
Simulando o crepúsculo
(que m’atinge…)
nas aturdidas tochas,
que m’envolvem - de paixão…

Estou na desabitada ausência,
do meu corpo…
escoando lágrimas na contraluz - óssea
(da manhã…)

Onde nomearei a poeira aquática – da tua luz,
por entre as gretas abandonadas,
(ao bolor?...)

Há uma seara em cada excesso – de memórias…
que se rasga na opacidade do tacto
(que, por dentro - ferve…)

É nos corredores – das veias
(que m’entrego…)
como febril semente atordoada,
de cal…

Trinco o musgo que à noite floresce
(E clamo…)

É nos estames – das tuas insónias,
que me revejo…
permanecendo na alvenaria acabrunhada
(da minha fome…)

Órgãos…
São órgãos esboroados – que m’atormentam
argilas fundeadas, de rostos
beatas de hibiscos - sedentas
rochas incendiadas
(de amor…)

E são os meus lábios – que te amam…
sob o anis que se dissolve, no olhar
(E discorre…)

12/12/08