Sábado, 20 de Dezembro de 2008

lembro-me do que (não) fomos


Fugi de ti como quem foge do impossível:
de braços retorcidos, olhar vago
e ombros enclausurados
(na distância...)

lembras-te?
éramos rumor d’aves a antecipar a queda
(intransigente...)
éramos dissabores semelhantes a arquejar na penumbra
(perpetuada...)
éramos derrota extenuada a percorrer os umbrais
(da manhã...)

Reencontrei o aroma dos espelhos, na tua mão
enquanto beijei - os céus,
no teu berço...

E foi a muda despedida que m’obrigaste a cumprir
(que me cegou)
quando o vácuo - do teu nome, m’absteve
d’existir...

Os meus olhos foram os teus até no silêncio
(que pedias...)

lembras-te?
das janelas caiadas pela voz que te mentiu
(sussurrando...)
«apenas uma ferida que sara,
apenas um retrato que, ao longe, fica...»


(nas tuas melhores mentiras encontrei as nossas grandes
verdades)

lembras-te?
quando te procurava nos corredores desertos
(para que te ver sorrir?...)
quando te negava o que querias só para que me agarrasses - a mão
(e pedisses, baixinho?...)
quando nos fingíamos amantes
(só para que o pudéssemos ser, na verdade?...)

A dissimulação da verdade sempre foi a nossa arte...

Sonhei contigo... (Uma e outra vez)
Mas já nada restou de nós, senão esses diálogos ausentes
(simulados...)
onde nos debruçámos sobre as grandes teorias da Arte
enquanto nos amávamo-nos discretamente,
pelo olhar...


20/12/08